O último brinde de Antônio Dal Pizzol

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Foto – Divulgação

A vinha cresce, floresce, dá frutos que geram vinhos, que evoluem, que emocionam, que  deixam lembranças, que marcam o tempo. Todo vinho é feito para ser degustado, mais cedo ou mais tarde, dependendo do seu estilo, da sua complexidade, do momento. Mas todos, sem distinção, nascem no vinhedo e é na taça, compartilhada com amigos, que cumpre seu papel mais importante: o de reunir pessoas para brindar a vida. Essa tem sido a rotina da Dal Pizzol Vinhos Finos há 47 anos. Porque o tempo é a mais implacável das medidas. Ele passa, deixa marcas, mas não volta. O dia 9 de janeiro de 2021 nunca mais será esquecido pela Dal Pizzol. Foi neste dia que a vinícola perdeu um de seus fundadores, o Antônio Dal Pizzol (71), o Seu Toninho, como era carinhosamente chamado por todos que o conheciam. E perdemos todos nós, pois não teremos mais sua presença carismática, cheia de paixão pelo vinho e pela vida. Daqui para frente nossos brindes não serão mais os mesmos, mas não deixaremos de brindar. Aliás, agora, mais do que nunca, vamos nos esforçar ainda mais para que o seu exemplo não se apague e permaneça vivo em cada brinde, como gostava de viver.

O começo 

Sua história com o vinho brasileiro começou ainda em 1974, quando fundou a Vinícola Monte Lemos – a reconhecida Dal Pizzol Vinhos Finos, localizada na Rota Cantinas Históricas, no distrito de Faria Lemos, interior de Bento Gonçalves (RS). O primeiro vinho que o Seu Toninho colocou debaixo do braço e saiu pelo Brasil abrindo mercado foi o Do Lugar Cabernet Franc, lançado em 1978 para comemorar o Centenário da vinda da Família Dal Pizzol ao Brasil. Durante toda sua vida, este sempre foi seu vinho preferido. Em 1981, surge o primeiro vinho carregando o nome da família, o Dal Pizzol Merlot. Com 20 anos no mercado, a empresa começa a colecionar prêmios sendo destaque na 2ª Avaliação Nacional de Vinhos com o seu Cabernet Sauvignon 1994. O primeiro prêmio internacional veio da França, em 1997.

Para comemorar seus 25 anos, a Dal Pizzol abre, em 1999, um espaço dedicado ao Enoturismo e que até hoje encanta todos que o visitam: é o Parque Temático do Vinho Dal Pizzol, um museu a céu aberto que preserva a cultura dos imigrantes italianos e ao mesmo tempo mantém uma coleção botânica de espécies nativas, exóticas, ornamentais, frutíferas e medicinais, todas identificadas e catalogadas. Animais domésticos e silvestres andam soltos e livres na natureza. O projeto tem apoio do Ministério da Cultura do Governo Federal, através da Lei Rouanet de Incentivos Fiscais, seguindo o conceito de que vinho é um Patrimônio Nacional e Universal. É lá que foi instalado o Vinhedo do Mundo, que logo viria a se tornar uma das três maiores coleções de uvas privada do mundo, a maior da América Latina.

Foto – Divulgação

Diversidade

Ainda em 1999, a Dal Pizzol começa a elaborar espumantes, colocando no mercado o Dal Pizzol Brut Tradicional. Sua tradição de lançar produtos comemorativos em datas especiais ganha força nas Bodas de Prata com a apresentação de um vinho assemblage envasado em garrafa de 3 litros (Dal Pizzol Millenium 2000), uma Grappa envasada em garrafa estilizada, importada da Itália, e um vinho comemorativo aos 25 anos, o Dal Pizzol Assemblage em garrafa de 500 ml. Mais tarde, em 2002, surge o Dal Pizzol Pinot Noir, hoje considerado um dos ícones do Brasil. E assim, com o passar dos anos, a vinícola foi lançando novos produtos, aperfeiçoando técnicas, conquistando paladares, sempre seguindo sua filosofia de elaborar vinhos sem passagem por barrica de carvalho, extraindo o máximo da fruta.

Em 2003, a marca começa a exportar para a Bélgica. Em 2004, em seus 30 anos, a empresa lança seu vinho comemorativo, incluindo em seu portfólio o Do Lugar Suco de Uva 100% Natural e o Do Lugar Espumante Moscatel. O Bag in Box chega em 2007. Um dos grandes lançamentos da Dal Pizzol foi o Touriga Nacional 200 Anos, lançado em 2008 em comemoração a chegada da Família Imperial ao Brasil. O sucesso foi tanto que o rótulo permanece até hoje em linha.

Todas uvas do mundo 

O Vinhedo do Mundo, que hoje reúne mais de 400 variedades de uvas de mais de 35 países de todos os continentes, teve sua primeira Colheita Simbólica em 2011, de onde foi vinificado o primeiro VINUMMUNDI, com 20 variedades de uvas. Neste mesmo ano, a vinícola também estreou a Degustação às Cegas, uma experiência enoturística única, realizada com os olhos vendados. A cada ano uma nova Colheita Simbólica no Vinhedo do Mundo e dela um novo VINUMMUNDI, tendo exemplares feitos com mais de 100 castas.  

Em 2013, o Ecomuseu da Cultura do Vinho é inaugurado com um acervo de vinhos brasileiros e internacionais de grande importância histórica. E juntamente com o Instituto R. Dal Pizzol passam a integrar a Association for Culture and Tourism Exchange (ACTE), uma das mais importantes entidades voltadas à cultura do vinho na Europa. E toda esta trajetória foi sendo construída safra a safra por Toninho na área comercial, e seu irmão Rinaldo Dal Pizzol (83), em projetos histórico-culturais, sócios inseparáveis.

E chega 2014 e com ele os 40 anos da vinícola. Para comemorar, um gran assemblage feito com Merlot, Cabernet Sauvignon, Tannat e Nebiolo. E lá foi o Seu Toninho entregar uma garrafa para amigos, clientes e jornalistas. Assim como fez em 2019, aos 45 anos da empresa, quando foi lançado outro corte, desta vez de Marselan, Alicante Bouschet e Petit Verdot, com pequena passagem em barrica francesa, ele refez seu habitual trajeto e entregou pessoalmente o vinho para diversos formadores de opinião.

Quase meio século

Nessas 47 safras, a Dal Pizzol vem mantendo parceria com agricultores de diversas regiões do Rio Grande do Sul, cultivando, além de uvas, muitas amizades. Seus vinhos, todos varietais, nascem de cerca de 15 castas. São vinhos únicos, típicos, sem passagem por carvalho, jovens, modernos e com graduação alcoólica moderada, todos em pequenos lotes. São cerca de 300 mil garrafas por ano.

Toninho era implacável em bem receber. Sempre com uma taça de espumante à mão e um sorriso aberto no rosto, estava a postos com seu chapéu de palha recepcionando as pessoas. Tinha o hábito de ligar para os amigos todo final de ano e no aniversário, desejando coisas boas. Este ano, ninguém recebeu a sua ligação. Ficam as lembranças, os bons momentos, a simplicidade de onde brotam emoções inesquecíveis. Que o seu último brinde, no dia 27 de novembro de 2020, jamais seja esquecido e que o seu amor pelo vinho brasileiro continue contagiando a todos que se relacionam com a Dal Pizzol.

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